{"id":121393,"date":"2024-07-03T16:35:10","date_gmt":"2024-07-03T19:35:10","guid":{"rendered":"https:\/\/snn.com.br\/?p=121393"},"modified":"2024-07-03T16:35:10","modified_gmt":"2024-07-03T19:35:10","slug":"condicoes-de-saude-de-profissionais-da-comunicacao-se-agravam-aponta-debate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radioborborema.com.br\/?p=121393","title":{"rendered":"Condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade de profissionais da comunica\u00e7\u00e3o se agravam, aponta debate"},"content":{"rendered":"<p>As condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade f\u00edsica e mental dos profissionais da \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo agravadas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, corroboradas pelas atuais organiza\u00e7\u00f5es do trabalho e pela aus\u00eancia de normas espec\u00edficas. Essa foi uma das constata\u00e7\u00f5es de audi\u00eancia p\u00fablica promovida pelo Conselho de Comunica\u00e7\u00e3o Social (CCS) do Congresso Nacional nesta segunda-feira (1\u00ba). No debate, foram apontados problemas que, segundo os participantes, s\u00e3o recorrentes e significativos, como flexibiliza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas, baixa remunera\u00e7\u00e3o, press\u00e3o e jornadas exaustivas.<\/p>\n<p>De acordo com o conselheiro Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Jesus da Silva, que requereu a audi\u00eancia e a presidiu, os problemas relatados como frequentes para os jornalistas tamb\u00e9m acontecem com radialistas, cinegrafistas e outros profissionais da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 O ambiente de trabalho nos adoece, nos enfraquece, nos pressiona. A gente precisa discutir no Congresso Nacional o impacto que essas press\u00f5es nos trazem no dia a dia \u2014 afirmou Silva.<\/p>\n<p><b>Press\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Analista em ci\u00eancia e tecnologia e jornalista na Funda\u00e7\u00e3o Jorge Duprat Figueiredo de Seguran\u00e7a e Medicina do Trabalho (Fundacentro), Cristiane Reimberg apresentou resultados de pesquisa para tese que concluiu em 2015 na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), quando estudou a sa\u00fade dos profissionais da imprensa. A partir da entrevista com 21 jornalistas de idades variadas e de diferentes meios de comunica\u00e7\u00e3o, ela analisou as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e sa\u00fade e a dial\u00e9tica de prazer e sofrimento, que pode acarretar em adoecimento.<\/p>\n<p>Cristiane relatou que constatou constante flexibiliza\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas dos profissionais.<\/p>\n<p>\u2014 Muitos jornalistas atuavam como freelancers, fixos ou como pessoas jur\u00eddicas, que na verdade n\u00e3o eram pessoas jur\u00eddicas; eles cumpriam uma jornada de trabalho, mas n\u00e3o tinham registro de CLT [Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho]. (&#8230;) Foi constatada entre esses profissionais uma longa jornada, principalmente nos dias de fechamento e coberturas especiais. De uma forma geral, os jornalistas acabavam trabalhando mais de 14 horas no dia. N\u00e3o se respeitavam os plant\u00f5es, seis dias de trabalho e um de descanso&#8230; Isso n\u00e3o acontecia. E n\u00e3o havia tamb\u00e9m compensa\u00e7\u00e3o de horas, com a inexist\u00eancia de hora extra.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, a quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o acontece de maneira \u201cdisfar\u00e7ada\u201d, na avalia\u00e7\u00e3o da jornalista, com o jornalista se vendo como parte da empresa e com isso sendo usado para extrair mais produtividade, press\u00e3o e ritmo de trabalho acelerado. Com as novas tecnologias, os profissionais tamb\u00e9m passaram a exercer diversas fun\u00e7\u00f5es, a se tornarem um \u201cfaz-tudo\u201d.<\/p>\n<p>O sofrimento, de acordo com a pesquisadora, aparecia ligado a quest\u00f5es como condi\u00e7\u00f5es de trabalho, precariedade, jornadas exaustivas, prazos curtos para conclus\u00e3o das tarefas, baixa remunera\u00e7\u00e3o, trabalho no final de semana e busca por quantidade, em vez de qualidade. Tamb\u00e9m havia quest\u00f5es mais subjetivas, como autonomia e realiza\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p>O estudo apontou ainda a ocorr\u00eancia de ass\u00e9dio moral e sexual e de estresse, apontado como algo presente no trabalho, principalmente em coberturas de maior intensidade.<\/p>\n<p>\u2014 Se a gente for buscando de 2015 para hoje, a produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcia est\u00e1 muito mais acelerada. Ent\u00e3o essa press\u00e3o \u00e9 ainda maior, porque o jornalista tem que estar postando nas redes sociais para que a not\u00edcia ganhe relev\u00e2ncia \u2014 disse Cristiane.<\/p>\n<p><b>Organiza\u00e7\u00e3o do trabalho<\/b><\/p>\n<p>Para o m\u00e9dico sanitarista H\u00e9lio Neves, as quest\u00f5es da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, no mundo moderno, trazem impactos complexos na sa\u00fade f\u00edsica e mental dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Em pesquisa que conduziu com apoio do Sindicato dos Radialistas em S\u00e3o Paulo, no per\u00edodo da pandemia, Neves constatou que o home office \u201cfoi uma oportunidade muito boa de reorganizar a vida, principalmente para quem tinha uma tarefa a entregar e, ap\u00f3s a entrega, encerrava seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Para aquela outra parte dos trabalhadores que tinha de cumprir atividades \u00e0 medida que eram convocados, e essa convoca\u00e7\u00e3o podia acontecer, muitas vezes, a qualquer hora do dia, a qualquer dia da semana, foi uma amea\u00e7a bastante grande. (&#8230;) Na quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do trabalho em site, no local da empresa ou em casa, tamb\u00e9m h\u00e1 um problema bastante importante para uma parte das pessoas que trabalha em teleatendimento, que \u00e9 o fato de que o seu local de trabalho n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfico para aquele trabalho \u2014 afirmou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Neves tamb\u00e9m pontuou que h\u00e1 20 anos a sa\u00fade mental n\u00e3o aparecia no Centro de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador como um problema importante em termos num\u00e9ricos \u2014 situa\u00e7\u00e3o muito diferente da atual, quando s\u00e3o cada vez mais comuns problemas como a s\u00edndrome de burnout, dist\u00farbio emocional que se manifesta como esgotamento provocado pelo excesso de trabalho.<\/p>\n<p>\u2014 A s\u00edndrome chamada de burnout \u00e9 de dif\u00edcil cuidado, de dif\u00edcil tratamento, exige terapia, exige medicamento. Muitas vezes [o profissional] perde o conv\u00eanio porque \u00e9 demitido, n\u00e3o consegue mais ser atendido pelos seus profissionais habituais, e no SUS a gente n\u00e3o consegue oferecer esse tipo de tratamento com a frequ\u00eancia e a intensidade que s\u00e3o necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>O conselheiro Davi Emerich afirmou que \u00e9 preciso equacionar a quest\u00e3o do apoio \u00e0 sa\u00fade do trabalhador, \u201cjogando pesado no fortalecimento do SUS como sistema ou criando mecanismos para que o trabalhador, mesmo que em rela\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho, possa ter acesso a algum plano de sa\u00fade que pelo menos o cubra no exerc\u00edcio daquele trabalho espec\u00edfico que ele est\u00e1 fazendo\u201d.<\/p>\n<p><b>Normas<\/b><\/p>\n<p>Faltam normas de sa\u00fade e seguran\u00e7a espec\u00edficas para os profissionais de comunica\u00e7\u00e3o. A afirma\u00e7\u00e3o foi feita pela da auditora fiscal do Trabalho Roseniura Santos, que disse ser urgente tra\u00e7ar regras que sejam adequadas \u00e0s peculiaridades do exerc\u00edcio das profiss\u00f5es no setor de comunica\u00e7\u00e3o, de forma tripartite, com participa\u00e7\u00e3o institucional do Minist\u00e9rio do Trabalho, mas tamb\u00e9m representa\u00e7\u00f5es patronais e de trabalhadores.<\/p>\n<p>\u2014 Na quest\u00e3o das aus\u00eancias normativas, para n\u00e3o dizer que as NRs [normas regulamentadoras] foram totalmente silentes, h\u00e1 duas cita\u00e7\u00f5es que dizem respeito ao setor, mas de uma forma muito indireta: n\u00f3s temos uma cita\u00e7\u00e3o na NR-12 e na NR-33 para falar das interfer\u00eancias eletromagn\u00e9ticas, ou seja, de car\u00e1ter relativo ao setor de comunica\u00e7\u00e3o, mas uma gotinha perdida num oceano.<\/p>\n<p>Assim como os demais debatedores, a auditora salientou desafios, principalmente diante da \u201c terceiriza\u00e7\u00e3o, quarteiriza\u00e7\u00e3o\u201d dos profissionais. Roseniura destacou mudan\u00e7as profundas nas normas regulamentadoras, entre elas a NR-1, que funciona como guarda-chuva e que entrou em vigor em 2022.<\/p>\n<p>\u2014 A NR-1 traz uma nova sistem\u00e1tica. Essa norma exige tr\u00eas etapas. Uma \u00e9 identifica\u00e7\u00e3o de perigos, um conceito novo. (&#8230;) Na segunda etapa, voc\u00ea vai avaliar dentre esses perigos o que \u00e9 um risco, ou seja, aquilo que tem uma probabilidade devida e tecnicamente fundamentada, avaliando esse risco conforme o grau de dano que ele possa causar, para, ent\u00e3o, estabelecer a terceira etapa, que \u00e9 controlar os riscos.<\/p>\n<p>O controle das normas tem impacto enorme, e \u00e9 importante, segundo a auditora fiscal, que as institui\u00e7\u00f5es representativas, tanto patronais quanto profissionais, se apropriem desse conhecimento t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 importante chamar a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia de as entidades representativas dos profissionais de comunica\u00e7\u00e3o, os sindicatos, as federa\u00e7\u00f5es atuarem de forma mais intensiva na exig\u00eancia das normas de sa\u00fade e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Para a conselheira Maria Jos\u00e9 Braga, da dire\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas e do Sindicato dos Jornalistas de Goi\u00e1s, \u201cn\u00e3o estamos conseguindo estabelecer as normas ou estabelecer mecanismos de cumprimento e de fiscaliza\u00e7\u00e3o das normas para minimizar os impactos dessa mudan\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho na sa\u00fade da classe trabalhadora\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 A gente j\u00e1 vivia tudo isso l\u00e1 em 2015, e foi sendo gradualmente agravado com a maior precariza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es e nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, agravado enormemente com a regulariza\u00e7\u00e3o dessa precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho oriunda da contrarreforma trabalhista de 2017, e, agora, ainda mais agravada com essa mudan\u00e7a provocada pelas tecnologias e que n\u00f3s estamos chamando de plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho \u2014 disse a conselheira.<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Senado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade f\u00edsica e mental dos profissionais da \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o sendo agravadas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, corroboradas pelas atuais organiza\u00e7\u00f5es do trabalho e pela aus\u00eancia de normas espec\u00edficas. 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